sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

A Santa Isabel (Na Ufrgs)





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Texto de Outrora

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A  SANTA  ISABEL  HOJE


A Santa Isabel é uma das regiões da Cidade de Viamão que mais tem se destacado pelo seu potencial econômico, social, político e humano. A proposta da atual Administração Pública Municipal denominada de Orçamento Participativo possibilitou que os moradores do 4º Distrito chegassem a uma conclusão que já estava construída geograficamente: a Santa Isabel é o centro de uma região composta por mais de 20 vilas.

Durante o processo de escolha dos representantes (Delegados) das comunidades junto ao O . P . e das discussões sobre as suas prioridades, reuniram-se mais de 200 pessoas no Salão Paroquial da Igreja da Santa Isabel, local definido para a realização destas assembléias. Foi a partir deste momento que os cidadãos desta região, encontrando os seus pares, perceberam (talvez pela primeira vez) que ali se encontravam pessoas das seguintes localidades: Campos da Colina, Condomínio Horizontal da Lomba do Sabão, Diamantina, Irma, Jardim Lacy, Jardim Universitário, Lanza, Luciana, Medianeira, Monte Alegre, Monte Castelo, Morro Santana, Nossa Senhora Aparecida, Passo do Sabão, Represa, Santa Miguelina, Sítio Lomba do Sabão, USBEE e União. Desta forma a Comunidade da Grande Santa Isabel, como alguns denominam a região, ganha a visibilidade do seu todo, da sua força de barganha política, do seu poder de organização popular, enfim adquire uma nova fisionomia social, econômica e política.

Considerada como zona estratégica para as atividades políticas da maioria dos partidos políticos de Viamão, sondada por redes de lojas comerciais de diversos tipos que começam ali a se instalar, olhada e pesquisada pelos técnicos que investigam o crescimento da região metropolitana de Porto Alegre, almejada por moradores de classe média de Porto Alegre que buscam um local de residência alternativa ao que a capital dos gaúchos oferece, querida e amada pelos seus admiradores mais entusiastas, assim a Santa Isabel demonstra suas especificidades urbanas. Mas o que existe de fato na Santa Isabel ou quais os elementos que a diferenciam sobremaneira das demais localidades de Viamão ??  

Mais do que vila ? Um pouco menos  que cidade ? O que é de fato a Santa Isabel ???

A resposta final e acabada para esta pergunta está longe de ser construída, no entanto, já temos alguns elementos, fruto de investigações científicas que temos realizado na cidade, que contribuem para esta reflexão sobre o processo de construção urbana aqui referido.

ALGUNS  PRESSUPOSTOS  TEÓRICOS


Para a noção de Cidade

 Definir o que é uma cidade, de fato, não é uma atividade fácil, diante das inúmeras concepções e noções do que realmente venha a ser uma cidade em toda a extensão do termo. O urbanista e pesquisador FERNANDO GOITIA em uma BREVE HISTÓRIA DO URBANISMO afirma que “o estudo da cidade é um tema tão sugestivo como amplo e difuso; impossível de abordar para um homem só, se levarmos em conta a quantidade de saberes que haverá de acumular.” Seguindo a sua sugestão de que “não devemos perder de vista, ao estudar as cidades, as valiosas fontes que a literatura nos oferece”, trazemos alguns conceitos de cidade construídos por alguns pensadores que nos antecederam sobre este tipo de estudo.

ARISTÓTELES trabalha com um conceito político de cidade, no momento em que sugere uma noção de diferenciação entre dois tipos de cidadãos que compõe as cidades. Neste sentido ele disse que “uma cidade é um certo número de cidadãos, de modo que devemos considerar a quem devemos chamar cidadãos e quem de fato é um cidadão (...) Chamamos, pois, cidadãos de uma cidade aos que tem a faculdade de intervir nas funções deliberativas e judiciais da mesma e cidadão em geral, ao contrário são aqueles cidadãos que tem a cidade apenas para a realização da sua vida.” Excluindo a discussão política colocada na definição de Aristóteles que traz a noção de cidade-estado da Grécia (o Estado é a Cidade e a Cidade é o Estado) entendemos que, para ele, uma vez reunidos um determinado número de cidadãos, teríamos uma cidade.

AFONSO, outro pensador das cidades,  referindo-se às cidades medievais que não se concebe sem a proteção de muros ao seu entorno como defesa das ameaças exteriores, define a cidade como “todo aquele lugar que é fechado com muros, com arrabaldes e edifícios que se tem com eles”.

CANTILLON, pensador e estudioso do século XVIII, imagina assim a origem de uma cidade: “Se um príncipe ou um senhor fixa a sua residência em um lugar que o agrada e se outros senhores o acompanham e ali se estabelecem para um convívio mútuo e social, este lugar se converterá em uma cidade.” Neste conceito temos a concepção de uma cidade Barroca, de caráter senhorial e eminentemente consumidora, onde reina o luxo que foi a origem das grandes cidades do Ocidente antes do advento da era industrial.

  Para os que preferem uma distinção entre cidade e natureza, considerando a cidade como uma criação abstrata e artificial do homem, destacamos a concepção de ORTEGA e GASSET: “A Cidade é um ensaio da sucessão que o homem faz para viver fora e frente ao cosmos, tomando dele porções seletas e previamente escolhidas.”

A opção que fiz, enquanto pesquisador em ciências sociais, foi pela análise qualitativa do social, através da proposta e das ferramentas que a antropologia social oferece para a análise da dinâmica social urbana. Portanto, mais do que me debruçar sobre uma grande quantidade de dados estatísticos, tabelas quantitativas e números exatos, proponho perceber a cidade através do que consigo extrair da sua essência qualitativa, ou seja, a sua cultura, o seu imaginário, os sentimentos que a permeiam, enfim a sua alma. Digo isto para introduzir uma outra concepção de cidade, difundida por SPENGLER para quem a alma (ou o espírito, como preferir) sustenta a dialética da cidade clássica.

Segundo SPENGLER “o que distingue a cidade de uma aldeia (ou vila) não é a sua extensão, não é o seu tamanho, se não a presença de uma alma citadina (...) O Verdadeiro milagre é quando nasce a alma de uma cidade. Subitamente sobre a espiritualidade geral da cultura, destaca-se a alma da cidade como uma alma coletiva de uma nova espécie, cujos últimos fundamentos permanecem para os outros em eterno mistério. E uma vez desperta, se forma um corpo visível. A coleção de casas da aldeias (ou vila), cada uma das quais com sua própria história, se converte em um único conjunto. E este conjunto vive, respira, cresce, adquire um rosto familiar e uma forma e uma história internas. A partir deste momento, apesar das casas em separado, do tempo, da catedral e do palácio (do governo), constitui a imagem urbana em sua unidade o objeto de um idioma de formas e de uma história específica que acompanha em seu curso todo o ciclo vital de uma cultura ”


Para a Dinâmica da Organização Espacial

As duas grandes categorias de análise científica em ciências sociais são, inevitavelmente, tempo e espaço, conforme a afirmação de vários autores que trabalhamos. Elas podem estar tão intimamente relacionadas que, algumas vezes, é quase impossível desconsiderar uma em detrimento de outra. Neste sentido, nos ensina Bachelard: “É pelo espaço, é no espaço que encontramos os belos fósseis de duração concretizados por longas permanências.”  (Bachelard, 1993)

Em função disso, além das representações que remontam o tempo vivido e o tempo lembrado, presentes nesta monografia, considero a questão espacial como um outro eixo inevitável de apreensão e análise.

Para esta “caminhada” e essa “descoberta” sobre a dinâmica espacial que estamos investigando, escolhemos três autores em especial. A incursão pela espacialidade de alguns perímetros urbanos nos faz dialogar com Schulz, para quem “el interés del hombre pur el espacio tiene raíces existenciales: deriva de una necessidad de adquirir relaciones vitales en el ambiente que le rodea para aportar sentido y ordem a um mundo de acontecimentos y acciones” (Norberg-Schulz, 1975). O segundo autor, como já sinalizamos anteriormente, é Bachelard que contribui sobremaneira para algumas interpretações que somente são possíveis dentro do campo da Fenomenologia da Imaginação (ou arqueologia do imaginário). Neste sentido, ele nos incita à algumas ponderações do tipo: “o espaço convida à ação, e antes da ação a imaginação trabalha” (Bachelard, 1993). O terceiro autor contribui para uma análise mais específica do fenômeno que estou tentando interpretar como um tipo de “Regionalismo” no sentido de que “O Regionalismo aponta para as diferenças que existem entre regiões e utiliza estas diferenças na construção de identidades próprias” (OLIVEN, 1992).

O esforço de trabalhar com estes autores e seus pressupostos vai no sentido de tentar perceber as características e especificidades do campo trabalhado, bem como dos atores sociais e da dinâmica social colocada neste campo, a partir de  um “olhar vibrátil” (Rolnik, 1997) sobre o espaço e as relações de espacialidade que envolvem, delimitam e, porque não dizer, definem este universo simbólico e cultural trabalhados.


Para a questão de Identidade Cultural

Os pressupostos básicos para a discussão da temática da identidade são oriundos de Renato Ortiz que afirma: “A rigor, faz pouco sentido buscar a existência de ‘uma’ identidade; seria mais correto pensá-la na sua interação com outras identidades, construídas segundo outros pontos de vista.” (ORTIZ, 1994). As noções tomadas por Ortiz de Lévi-Strauss também são de suma importância para este estudo, por exemplo: “A identidade é uma espécie de lugar virtual, o qual nos é indispensável para nos referirmos e explicarmos um certo número de coisas, mas que não possui na verdade, uma existência real.” (ORTIZ, 1994)


Para as questões de Método de Pesquisa

A  pesquisa qualitativa e, em especial, o método etnográfico e etnológico, nos estudos de ciências sociais voltados a pesquisa de sociedades complexas do tipo urbano-contemporaneo-capitalista é aqui o centro da nossa construção científica. No meu entendimento, é através deste tipo de trabalho que podemos desenvolver a “ação” e a “imaginação” de que Bachelard nos falou em seus escritos.

Para a metodologia do trabalho de campo, utilizaremos as principais técnicas do método etnográfico, como a observação participante, realização de entrevistas com o uso de gravador, análise de contexto do campo pesquisado e análise de conteúdo de documentos históricos, reportagens de jornais e revistas.

Etnografar o campo estudado, representa para nós, destacar os principais atores sociais, suas características principais, enfim nos mover no sentido de realizar uma tarefa que se assemelha com o esforço de “tentar ler um manuscrito estranho, desbotado, cheio de elipses, incoerências, emendas suspeitas e comentários tendenciosos, escrito não com os sinais convencionais do som, mas com exemplos transitórios de comportamento modelado.” (Geertz, 1978)



sábado, 24 de janeiro de 2026

Mar Novalis

 



Mar (NovalisI


Nós

vamos

Amar 

o

 Mar

assim

como

a

nossa

Mãe 

nos

 Amou!



Aparecido de Tal

Desde Porto Isabel

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Eu sabia, e tu sabias?: Houve Um Tempo

Eu sabia, e tu sabias?: Houve Um Tempo:                    Transcrevo abaixo um trecho de meu livro sobre minhas memórias.                                   O tempo...

Carlos Drummond de Andrade (a flor de samambaia)

Aos Santos de Junho


Meu santo Santo Antônio de Lisboa,

repara em quanto coração aflito,

a padecer milhões por coisa à toa.

Por que não baixas, please, do infinito?


O mundo é o mesmo após aquela tarde

em que, à falta de gente, por encanto,

falaste aos peixes, e eles, sem alarde,

meditavam em roda de teu manto.


Não sabemos, Antônio, o que queremos,

nem sabemos querer, porém confiamos

de teu amor nos cândidos extremos

e nessa fiúza todos continuamos.


Se não sorris a nosso petitório,

acudindo ao que houver de mais urgente,

se, em vez do café, levas o tório,

como pode o pessoal ficar contente?


Alferes, capitão de soldo largo,

tua civilidade nos proteja.

Não nos deixes papar arroz amargo,

e os brotos (de grinalda?) leva à igreja.


Olha as coisas perdidas, Antoninho:

vergonha, isqueiro, tempo… Se encontrares

um coração jogado no caminho,

traze-o de volta ao dono, pelos ares.


E tu, senhor São João, que vens chegando

ao estrondo de bombas (de hidrogênio?),

salve! mas, por favor, dize: até quando

o jeito é ensurdecer: por um milênio?


Sei que não és culpado, meu querido.

Amas o fogo, a sorte, a clara de ovo,

a flor de samambaia e seu sentido

mágico, à meia-noite, para o povo.


E o manjerico verde, casamento

com rapaz; ou, senão, murcho, com velho.

Responde, João: em julho vem aumento?

(Bem sei que o assunto foge ao Evangelho.)


Mas dançaremos todos por lembrar-te,

e pulando, sem pânico, a fogueira,

pobres clientes do câncer e do enfarte,

ao clarão de outra chama verdadeira


que arde em nós, não se extingue e nos consola,

ó João Batista degolado e suave,

bendiremos a graça de teu nome,

e na funda bacia a alma se lave.


Não importa, se ardemos: esta brasa,

como o petróleo, é nossa. Mas, bondoso

e friorento São João: ao cego, em Gaza,

dá-lhe em sonho um balcão, para seu gozo.


E tu, ó Pedro astuto e rude, rocha

no caminho do incréu, baixa e descansa,

contando-nos teus contos de carocha,

os mesmos em Caeté como na França.


Tens as chaves do céu ou do Tesouro?

Aqui a turma — é pena — se interessa

bem mais pela segunda — tanto ouro

nas almas se perdendo… A vida é essa.


E o mais que se dissipa em schiaparellis,

balenciagas, espécies superfinas

(que não sei como pôr os erres e eles),

em peles balzaquianas e meninas.


Pedro-piloto-barca: a teu prestígio,

da vida este canhestro e mau aluno,

evitando de longe o curso estígio,

ganha a sabedoria de Unamuno.


No alto não me recebes, mas à porta,

os coros inefáveis surpreendendo,

cultivarei as minhas flores de horta:

a saudade do céu é um dividendo.


Antônio, Pedro, João: aos três oferto

esta saudade em nós, sem testemunho:

pois, se o homem rasteja em rumo incerto,

balões sobem ao céu, no mês de junho.

17/06/1956

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

verborragia

 







Você sabe o que significa "Verborragia"?



Falar em excesso, de forma fluente e com muitas palavras, mas com pouco ou nenhum conteúdo relevante, importância ou sentido, sendo um uso excessivo e muitas vezes vazio de linguagem, também chamado de verborreia ou verbosidade. Pode ser um sintoma em alguns transtornos psicológicos, como mania no transtorno bipolar, ou uma forma de aliviar a ansiedade em pessoas com fobia social, envolvendo um fluxo compulsivo de fala.



https://acidadedesantaisabel.blogspot.com/2012/11/malala-isabel.html




A Santa Isabel é boa

 





Isabel

A Santa Isabel é boa, 
mas há quem se dedique para o delito
 e isso não é bom.
A Cidade de Santa Isabel necessita de cadeias!?!?
O delito de outrora ainda repercute.
Não há bibliotecas públicas,
Não há camara pública 
ou sala de artes cenicas.
As artes plasticas
ficam consumidas
nos próprios gabinetes.
Pão e circo é na Europa.
Aqui é pão e água.
Poderia dizer
novamente
que o crime é bio-psiquico-social,
mas o fato é que
muda governo
e a cidade continua
com desfiles de carroças,
crueldade com animais,
tempo árido,
classe trabalhadora órfã.
Cadê a unidade popular?
Cadê a sabedoria sem cadeias?
A Santa Isabel é boa,
mas o delito é ruim.
Você já leu Materlinck hoje?
Com licença,
vou a ele.
Não há mais o que declarar.
Findo o termo.
Até o próximo delito.

Jacquesja@zaz.com.br





domingo, 21 de dezembro de 2025

Antônio Flávio Pierucci

22/06/2012

Morreu em SP, aos 67, sociólogo Flávio Pierucci

Professor da USP estudou mudanças no cenário religioso do país, com ascensão das denominações neopentecostais

- Autor de livros como 'O Desencantamento do Mundo', pesquisador ajudou a criar método do Datafolha nos anos 1980


O sociólogo Flávio Pierucci durante entrevista no Cebrap, em SP
Jorge Araújo 31.ago.2001/Folhapress

 

O professor da USP e sociólogo Antônio Flávio Pierucci morreu ontem pela manhã, em São Paulo, aos 67 anos, em decorrência de um infarto fulminante.

O acadêmico tinha diabetes leve e pressão alta, ambas controladas com medicação. Por volta das 10h de ontem, uma equipe do Samu chegou à residência do pesquisador, na Vila Mariana (zona sul), para tentar reanimá-lo, mas não obteve sucesso.

O corpo de Pierucci será enterrado hoje, no Cemitério Municipal de Altinópolis, cidade do Norte paulista (a cerca de 330 km da capital) em que ele nasceu. O professor não deixa filhos.

Três objetos de estudo se destacaram na trajetória do sociólogo: a produção teórica do alemão Max Weber (1864-1920), o perfil do voto conservador em SP e o enfraquecimento do catolicismo, este último coincidindo com a ascensão das denominações neopentecostais.

No âmbito da pesquisa weberiana, publicou em 2003 "O Desencantamento do Mundo - Todos os Passos do Conceito de Max Weber" (editora 34), volume originado de sua tese de livre-docência na USP.

Na obra, Pierucci esmiúça a noção do título, segundo a qual a história do Ocidente testemunhou um lento processo de afastamento da religião de práticas e rituais místicos, mágicos.

No ano seguinte, o sociólogo, que integrou os quadros do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e foi secretário-geral da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), cuidaria da edição de "A Ética Protestante e o 'Espírito' do Capitalismo" (Cia. das Letras), obra-chave de Weber.

Segundo Reginaldo Prandi, professor de sociologia da USP e orientador da tese de doutorado de Pierucci, ele concluíra há pouco a revisão técnica de mais dois títulos weberianos, sobre as religiões da China e da Índia.

IMAGEM EVANGÉLICA

No campo da sociologia da religião, explica Prandi, o sociólogo vinha se dedicando à análise das estratégias dos evangélicos pentecostais para ingressar na mídia e mudar a imagem de suas denominações. Ele também se debruçava sobre as manifestações musicais desses grupos.

Além de "O Desencantamento do Mundo", o acadêmico publicou a coletânea de ensaios "Ciladas da Diferença" (editora 34; 1999) e o livro "A Magia" (Publifolha; 2001).

No começo dos anos 1980, ao lado de Prandi e Antonio Manuel Teixeira Mendes, atual superintendente da Folha, Pierucci desenvolveu uma metodologia para o Datafolha (o então recém-criado instituto de pesquisas do Grupo Folha) que cruzava dados geográficos, de renda e sociais.

"Ele ajudou a entender os mecanismos que regem a decisão do eleitor, em um momento em que ainda havia poucos estudos a esse respeito. Radiografou o malufismo em São Paulo, por exemplo", diz Mendes.

Em mensagem enviada por e-mail, o sociólogo e ex-presidente Fernando Henrique Cardoso lamentou a morte do colega. "Convivi extensamente com ele no Cebrap. Destacou-se sempre como pesquisador competente e intérprete refinado."

Livros / Antônio F. Pierucci


Igreja: contradições e acomodação
1978. Editora Brasiliense
Um estudo das concepções do clero católico sobre a reprodução humana e o problema do aborto

São Paulo: trabalhar e viver
Com Vinicius Caldeira Brant
1989. Editoria Brasiliense
Analisa o desenvolvimento econômico e as condições de trabalho, moradia, saúde, a criminalidade e as lutas urbanas na cidade de SP

A realidade social das religiões no Brasil
Com Reginaldo Prandi.
1996. Editora Hucitec
Uma discussão das relações entre as religiões e as transformações da sociedade, sobretudo na esfera política

Ciladas da diferença
1999. Editora 34
Sete ensaios sobre a questão da diferença. Analisa o eleitorado de direita e as classes populares em São Paulo, os movimentos feministas e o fundamentalismo islâmico

A magia
2001. Publifolha
Ensaio sobre o tema a partir dos principais teóricos que estudaram o problema (Frazer, Hubert, Mauss, Durkheim, Malinowski, Leach)

O desencantamento do mundo
2005. Editora 34
Análise de um dos conceitos centrais do pensamento do sociólogo alemão Max Weber

 

Especialista em Weber, reforçou a identidade cristã do brasileiro

LUIZ FELIPE PONDÉ
COLUNISTA DA FOLHA DE SÃO PAULO

Antônio Flavio Pierucci foi um ícone dos estudos científicos da religião entre nós.

Estudos esses que ainda carecem de tradição num país que costuma confundir o mundo do "sagrado" com o mundo secular.

Nos seus termos, "sociólogos da religião sem coração" é o que nos falta. Com sua morte ontem, esta falta será ainda maior.

Pierucci era um grande especialista, dentre outros feitos, no crescimento do cristianismo pentecostal brasileiro e na obra do sociólogo Max Weber (1864-1920).

NAÇÃO CRISTÃ

Entre suas inúmeras contribuições, podemos apontar sua análise do crescimento estatístico do pentecostalismo brasileiro, visto pelo sociólogo como "mais do mesmo", na medida em que reforça a identidade cristã do Brasil, ao contrário daqueles que gostam de dizer que somos uma nação de diversidade religiosa.

Mas, se por um lado, permanecemos cristãos como sociedade, no âmbito das denominações cristãs e suas "competências de gestão", este crescimento era visto pelo sociólogo como indicativo da maior competência do clero pentecostal na gestão do mercado da fé cristã do que seu concorrente católico.

Para Pierucci, este fato impunha uma demanda mercadológica à Igreja Católica, antes acostumada à ineficiência pré-capitalista.

MAGIA E RELIGIÃO

No campo de seus estudos weberianos acerca da "desmagificação", mais conhecida como "desencantamento", Pierucci aprofundou o entendimento das diferenças entre as ideias de magia e de religião, que para ele não eram a mesma coisa.

A primeira seria concreta, pragmática e amoral, a segunda, abstrata, metafísica e moralista.

Fonte: jornal FOLHA DE SÃO PAULO

quinta-feira, 19 de junho de 2025

Título:

A Ética Protestante e o espírito do capitalismo.

Autor:

Max Weber


Edição de Antônio Flávio Pierucci

Editora Companhia das Letras


Tradução de José Marcos Mariani de Macedo

Revisão técnica, edição de texto, apresentação, glossário, correspondência vocabular e índice remissivo de Antônio Flávio Pierucci


Fichamento de Jacques Jacomini


Parte 01 

O Problema

1. Confissão religiosa e estratificação social

    O autor da obra inicia com dados estatísticos levantados na sua pesquisa, quando diz:

    "Basta uma vista de olhos pelas estatísticas ocupacionais de um país pluriconfessional para constatar a notável freqüência N1 de um fenômeno por diversas vezes vivamente discutido na imprensa e na literatura católicas N2 bem como nos congressos católicos da Alemanha: o caráter predominantemente protestante dos proprietários do capital e empresários, assim como das camadas superiores da mão-de-obra qualificada, notadamente do pessoal de mais alta qualificação técnica ou comercial das empresas modernas".

Nota de pé de página número 3

    Sem citar dados quantitativos específicos, Weber que demonstrou ao longo da sua existência grande interesse pela economia, história e direito, deixa claro, desde o início da obra a relação entre uma profissão de fé (protestante) e um grupo social específico (os proprietários do capital e empresários).

    Segue, no mesmo tom, dando explicações acessórias ao supra citado:

    "Está claro que a participação dos protestantes na propriedade do capital N4 na direção e nos postos de trabalho mais elevados das grandes empresas modernas industriais e comerciais, N5 é relativamente mais forte, ou seja, superior à sua porcentagem na população total, e isso se deve em parte a razões históricas N6 que remontam a um passado distante em que a pertença a uma confissão religiosa não aparece como causa de fenômenos econômicos, mas antes, até certo ponto, como conseqüência deles".

    Falamos que Weber não se dedica apenas ao conhecimento sociológico, mas também possui interesse histórico e econômico, isso aparece no trecho que segue:

    "Mas aí se levanta a questão histórica: qual a razão dessa predisposição particularmente forte das regiões economicamente mais desenvolvidas para uma revolução na Igreja? E aqui a resposta não é assim tão simples como à primeira vista se poderia crer. Com certeza, a emancipação ante o tradicionalismo econômico aparece como um momento excepcionalmente propício à inclinação a duvidar até mesmo da tradição religiosa e a se rebelar contra as autoridades tradicionais em geral. Mas cabe atentar aqui para o que hoje muitas vezes se esquece: a Reforma significou não tanto a eliminação da dominação eclesiática sobre a vida de modo geral, quanto a substituição de sua forma vigente por unia outra. E substituição de uma dominação extremamente cômoda, que na época mal se fazia sentir na prática, quase só formal muitas vezes, por uma regulamentação levada a sério e infinitamente incômoda da conduta de vida como um todo, que penetrava todas as esferas da vida doméstica e pública até os limites do concebível".

    Na sequência surge um tema recorrente, a cultura cristã católica na relação com a cultura cristã não católica e os seus desdobramentos históricos e econômicos na Europa:

    "A dominação da Igreja católica — 'que pune os hereges, mas é indulgente com os pecadores', no passado mais ainda do que hoje — é suportada no presente até mesmo por povos de fisionomia econômica plenamente moderna [e assim também a agüentaram as regiões mais ricas e economicamente mais desenvolvidas que a terra conhecia na virada do século xv]. A dominação do calvinismo, tal como vigorou no século XVI em Genebra e na Escócia, na virada do século XVI para o século XVII em boa parte dos Países Baixos, no século XVII na Nova Inglaterra e por um tempo na própria Inglaterra, seria para nós a forma simplesmente mais insuportável que poderia haver de controle eclesiástico do indivíduo. [Foi exatamente assim, aliás, que a sentiram amplas camadas do velho patriciado da época, em Genebra tanto quanto na Holanda e na Inglaterra.] Não um excesso, mas uma insuficiência de dominação eclesiástico-religiosa da vida era justamente o que aqueles reformadores, que surgiram nos países economicamente mais desenvolvidos, acharam de criticar".

    


2. O "espírito" do Capitalismo

    Esta parte do texto é uma das principais, pois provoca, via de regra, alguns equívocos nos leitores menos atentos e preparados para a leitura de Weber. No entanto, não há "mistério" algum, basta ficar atento e buscar entender o enfoque que o autor está privilegiando: Cultural.

    Desde o início do capítulo, o autor já esclarece:

    "No título deste estudo emprega-se o conceito de “espírito do capitalismo”, que soa um pouco pretensioso. O que se deve entender por isso? [Na tentativa de lhe dar uma “definição” ou algo assim, logo se apresentam certas dificuldades que pertencem à natureza do próprio objetivo da pesquisa.] Se é que é possível encontrar um objeto que dê algum sentido ao emprego dessa designação, ele só pode ser uma “individualidade histórica”, isto é, um complexo de conexões que se dão na realidade histórica e que nós encadeamos conceitualmente em um todo, do ponto de vista de sua significação cultural. Tal conceito histórico, entretanto, na medida em que por seu conteúdo está relacionado a um fenômeno significativo em sua peculiaridade individual, não pode ser definido (vale dizer: “delimitado”) segundo o esquema genus proximum, differentia specifica, devendo antes ser gradualmente composto a partir de cada um de seus elementos, extraídos da realidade histórica. Daí por que a apreensão conceitual definitiva não pode se dar no começo da pesquisa, mas sim no final: noutras palavras, somente no decorrer da discussão se vai descobrir, e este será seu principal resultado, como formular da melhor maneira — isto é, da maneira mais adequada aos pontos de vista que nos interessam — o que entendemos aqui por “espírito” do capitalismo. Por outro lado, esses pontos de vista (dos quais tornaremos a falar) não são os únicos possíveis para analisar os fenômenos históricos que estamos considerando. Para esse, como para todo fenômeno histórico, a consideração de outros pontos de vista produziria como “essenciais” outros traços característicos: segue-se daí que não se pode ou não se deve necessariamente entender por “espírito” do capitalismo somente aquilo que nós apontaremos nele como essencial para nossa concepção. Isso faz parte da natureza mesma da “formação de conceitos históricos”, a saber: tendo em vista seus objetivos metodológicos, não tentar enfiar a realidade em conceitos genéricos abstratos, mas antes procurar articulá-la em conexões [genéticas] concretas, sempre e inevitavelmente de colorido especificamente individual".


3. O Conceito de vocação em Lutero



    O Objeto da pesquisa




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